A revolta das avós: entre o amor e o cansaço
© KarmaWeather por Konbi - Todos os direitos reservados
Avó, babá por obrigação?
Houve um tempo em que as avós representavam a doçura dos lanches da tarde e os abraços das férias de verão. Seu papel se limitava a visitas ocasionais, um refúgio familiar onde se podia ser mimado. Mas hoje, “vovó” virou uma instituição, uma peça-chave na engrenagem familiar, presa em um ciclo sem fim.
A razão é simples: a modernidade mudou tudo. Com os dois pais trabalhando, jornadas exaustivas e os custos absurdos de creches e babás, quem é chamado para salvar o dia? A avó, claro! Sempre disponível, gratuita e cheia de amor… na teoria. Na prática, algumas sentem que se tornaram cuidadoras em tempo integral—sem nunca terem escolhido esse papel.
O custo de vida está disparando, faltam babás, as creches estão lotadas… Assim, gostando ou não, as avós assumem o papel. Uma quarta-feira aqui, um fim de semana ali, depois todos os dias após a escola, e logo todas as férias. Até que algumas chegam ao limite.
As avós de hoje já não são apenas confidentes ou contadoras de histórias. Elas se tornaram figuras centrais na organização diária das crianças, muito além do que imaginaram.
Antes, eram chamadas para momentos especiais. Agora, precisam lidar com idas e vindas da escola, refeições, deveres e atividades extracurriculares. Essa mudança acontece devido à pressão econômica e à organização do mundo do trabalho, que deixa poucas opções para os pais.
Se algumas aceitam essa responsabilidade com alegria, outras começam a sentir um cansaço psicológico, presas a essa nova maternidade por procuração.
Os diferentes tipos de avós modernas
-
As “vovós faz-tudo”
Aceitam seu papel com carinho (e às vezes com um pouco de resignação). Cuidam dos netos com energia, ensinam receitas, compartilham lembranças… mas, com o tempo, acabam esgotadas.
-
As “vovós à beira do colapso”
Elas amam os netos, claro, mas entre compras, idas e voltas, birras e noites mal dormidas, estão prestes a sofrer um burnout… depois dos 65 anos! Não reclamam sempre, mas sonham secretamente em tirar um dia de folga… só que estão aposentadas!
-
As “vovós rebeldes”
Elas disseram NÃO. Não a acordar às 6h para levar os pequenos à escola, não às férias “de graça” com os netos em casa, não a viver uma segunda maternidade. Elas querem uma aposentadoria livre, tempo para si, viagens, yoga, encontros com amigos… enfim, uma vida sem mamadeiras nem deveres escolares.
Um cansaço psicológico que vai além do esforço físico
Fala-se muito do esgotamento dos pais que trabalham, mas raramente se menciona o das avós, um cansaço invisível para a sociedade. Na psicologia, sabe-se que a perda de controle sobre o próprio tempo e autonomia pode levar a um desgaste mental profundo.
O conflito interno: amor vs. frustração
As avós vivem um dilema: o amor pelos netos versus a frustração de perder sua liberdade. Algumas sentem culpa por se recusarem a ajudar, outras acumulam exaustão sem ousar falar. Essa tensão emocional pode levar a irritabilidade, fadiga extrema e até mesmo sofrimento psicológico.
A síndrome do “excesso de papel”
Na psicologia social, há um fenômeno conhecido: quando uma pessoa assume um papel que vai além do esperado, ela sente estresse e perda de controle. Muitas avós não previram que teriam que reviver a criação de crianças, muito menos de forma imposta.
A necessidade de reconhecimento
Quando uma mãe ajuda seu filho com os netos, isso é visto como normal. No entanto, essa ajuda raramente é valorizada. Muitas avós acabam se sentindo ingratas porque seu papel não é visto como um sacrifício, mas como algo “óbvio”. E a falta de reconhecimento é um dos principais fatores de burnout.
A pressão social e familiar
Dizer “não” aos próprios filhos nunca é fácil. Muitas avós sentem a pressão de serem a “boa avó”: sempre disponíveis, carinhosas, presentes, sem nunca reclamar. Mas onde fica o bem-estar delas?
Por que dizem não
O que surpreende não é que algumas se recusem a serem babás oficiais, mas que isso ainda choque. Uma avó que não quer cuidar dos netos é egoísta?
-
Elas dizem: “Já fizemos a nossa parte!”
Muitas dessas mulheres criaram seus filhos enquanto trabalhavam, sem ajuda dos próprios pais, muitas vezes em condições mais difíceis do que as de hoje. Por que deveriam sacrificar sua aposentadoria—essa tão esperada “segunda vida”—para repetir a maternidade?
-
O direito à liberdade
A aposentadoria não significa ter tempo livre para sempre doar. As avós rebeldes querem viajar, experimentar novos hobbies, descobrir novas paixões… e, acima de tudo, não serem reduzidas ao seu papel familiar.
-
O julgamento da sociedade
O problema é que a sociedade ainda não absorveu essa ideia. Uma avó que não quer cuidar dos netos precisa se justificar, se defender, e até enfrentar críticas disfarçadas:
- “Mas você não quer passar tempo com eles?”
- “Você tem sorte de ter uma família, outras dariam tudo para estar no seu lugar.”
- “Antigamente, as avós sempre cuidavam dos netos, é normal!”
Em resumo, as avós rebeldes às vezes são vistas como egoístas… quando, na verdade, só estão defendendo seu direito a uma aposentadoria livre.
Uma revolta justificada?
Algumas falam sem rodeios:
“Amo meus netos, mas quero aproveitar minha vida. Vejo-os quando quero, não quando esperam que eu os veja.” – Helena, 68 anos.
“Quando criei meus filhos, ninguém me ajudou. Por que agora preciso estar sempre disponível para os deles?” – Maria, 72 anos.
“Fui babá por dois anos para ajudar, mas percebi que nunca ia acabar. Tive que dizer CHEGA antes de enlouquecer.” – Clara, 65 anos.
Essas avós rebeldes não são insensíveis. Amam seus netos, mas lutam contra um papel imposto. Talvez um dia deixemos de ver as avós como algo garantido e entendamos que a família deve ser equilibrada… onde todos têm direito ao seu espaço.
E você, é mais vovó amorosa ou vovó rebelde?